aventura de descobrir uma espécie
Entenda como os cientistas identificam animais ainda não descritos pela ciência!
Foi em uma viagem pelo rio Cururu-açu, no sul do Pará, em 1999. Os ornitólogos Elizabeth Höfling, Marcos Raposo e Renato Gaban-Lima viram um curioso papagaio: quase careca, sem penas na cabeça, ele tinha a pele da região de cor laranja. Os três logo pensaram que se tratava de uma nova espécie, pois as características dele não se encaixavam com as de nenhum papagaio que o trio conhecia! Mas, ao obter dados sobre a ave, descobriram que ela havia sido identificada como um jovem da espécie curica-urubu. "Foi um banho de água fria", lembra Marcos Raposo .
Anos antes, em 1980, o zoólogo Galileu Coelho coletou, em uma reserva em Pernambuco, duas corujas iguais e as levou para a universidade federal do estado, onde atuava. Lá, elas ficaram sem serem estudadas. Até que, em 1997, o professor José Maria Cardoso da Silva chegou à instituição. Com experiência na Amazônia, ele viu as aves e perguntou: que bichos são esses? Ao ouvir a resposta -- Glaucidium hardyi , presente na floresta amazônica --, duvidou. "As corujas eram bem diferentes dessa espécie", conta. "Propus, então, que fossem estudadas com calma."
No mesmo ano, 1997, uma cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) coletou, por acaso, um peixe em um igarapé perto de Manaus. Ele era tão pequeno (dois centímetros) que não dava para dizer se pertencia a uma nova espécie ou se era só a forma jovem e desconhecida de algum grupo de peixes. Para piorar, não podia ser estudado a fundo pelos cientistas, pois era o único exemplar! "Em casos como esse, é prudente manter o animal intacto, como prova de que foi de fato achado", explica Jansen Zuanon , biólogo do Inpa envolvido no estudo do peixe.
Essas histórias são diferentes, envolvem cientistas e bichos distintos, mas têm algo em comum: seu final. Todas terminaram com a conclusão de que os animais em questão -- o papagaio, a coruja e o peixe -- eram de uma espécie até então desconhecida pela ciência!
Mas os ornitólogos não tinham descoberto que o papagaio era definido como um curica-urubu jovem? Sim! Os cientistas do Inpa não estavam impedidos de estudar o peixe e, assim, confirmar se ele era de uma nova espécie? Pois é. Mas, até aqui, você só conheceu o início das histórias e nem sabe como se descobre uma nova espécie...
Uma espécie é considerada nova quando difere de todas as outras que já tiveram suas características descritas pelos cientistas. Essa diferença costuma ser sutil: no caso dos peixes, por exemplo, pode estar no número de escamas ou na forma dos dentes. Por isso, é preciso ser, em geral, um especialista para ter certeza de que uma espécie é nova!
Taxônomos e sistematas são os especialistas em descrever novas espécies e estudar suas relações de parentesco. Eles comparam espécies já descritas entre si e podem encontrar exemplares que não se encaixam nas características de nenhuma espécie já conhecida. "Isso leva a estudos que, em geral, acabam com a publicação de um texto, descrevendo a nova espécie, em uma revista científica", explica Jansen Zuanon.
Mas o que é preciso analisar para dizer se uma espécie é nova?! Isso é o que você vai descobrir na continuação desta série de textos!
Assim se faz uma descoberta
O anúncio de que uma nova espécie foi encontrada depende de longa investigação
Você teria paciência para contar todas as escamas de um peixe? Que questão, né?! Mas saiba que, diante de um bicho que pode ser de uma nova espécie, o cientista precisa estudá-lo a fundo: compará-lo com espécies próximas, para confirmar se o animal não pertence a elas, e obter informações para descrevê-lo!
O desenho mostra a caburé-de-pernambuco, espécie recém- descoberta de coruja. A plumagem marrom serve de disfarce entre as folhagens - tanto é que até hoje não foi possível tirar uma foto dela! (imagem: Conservation International)
Os dados necessários para descrever uma nova espécie variam de grupo para grupo de seres vivos. No caso de peixes, por exemplo, podem incluir até o número de escamas! "É comum também contar os raios das nadadeiras e estudar o esqueleto do peixe detalhadamente por meio de radiografias e do processo chamado diafanização", explica Jansen Zuanon.
Na hora de comparar o animal a espécies próximas, também são analisados vários aspectos! "No caso dos papagaios, é importante comparar, por exemplo, o tamanho e a coloração", conta Marcos Raposo. "Para aves, a vocalização também é analisada."
Foi ao comparar a coruja coletada em 1980 com duas outras espécies, por exemplo, que se provou que ela era, até então, desconhecida pela ciência! Pelo tamanho do corpo, asa e cauda, coloração da plumagem e vocalização, notou-se que ela não era da espécie Glaucidium hardyi, como havia sido cogitado a princípio, e nem de outra, Glaucidium minutissimum. Era, sim, uma espécie nova, que ganhou o nome de caburé-de-pernambuco (Glaucidium mooreorum).
Mas onde um cientista pode achar um bicho que possa ser de uma nova espécie? "Em campo, ele pode capturar ou ver uma espécie que não conhece e decidir tentar identificá-la", conta Jansen Zuanon. "Muitas vezes, porém, essa nova espécie capturada pode passar despercebida, confundida com outra e ficar guardada em um museu por anos, até que um especialista, analisando-a, note que ela é uma nova espécie e a descreva."
O caso do papagaio de cabeça careca e laranja, que você vê na foto ao lado, ilustra essas situações. Ao vê-lo, os cientistas pensaram que ele era uma nova espécie. Mas descobriram que, em 1950, um ornitólogo alemão o classificou como um jovem papagaio da espécie curica-urubu. As aves dessa espécie são carecas com a cabeça preta, mas o cientista pensou que, quando jovens, elas deviam ter a cabeça careca e laranja, como a ave que encontrou.
A classificação, porém, estava errada. Marcos Raposo e os outros ornitólogos mostraram isso ao estudar o papagaio de cabeça careca e laranja. Os cientistas descobriram que ele não podia ser um curica-urubu jovem porque tinha características típicas de adulto. Além disso, como os ornitólogos constataram, o curica-urubu, quando jovem, tem a cabeça cheia de penas verde amareladas. Ou seja, é diferente do papagaio careca e de cabeça laranja. Sem falar que a distribuição geográfica das duas aves é diferente...
Diante disso, os ornitólogos escreveram um texto, descrevendo o papagaio de cabeça careca e laranja como uma nova espécie, e o publicaram em uma revista científica em 2002, pois assim se faz o anúncio oficial da descoberta! Na ocasião, o papagaio ganhou o nome científico de Pianopsita aurantocephala!
Uma descoberta emocionante
Descrever uma nova espécie dá trabalho, mas pode significar uma grande alegria
Quando Jansen Zuanon analisou pela primeira vez o peixe encontrado em 1997 perto de Manaus, ele ficou surpreso com as características do animal, apelidado de ’peixe misterioso’. Mais ainda porque ele não conseguiu dizer a qual grupo de peixes da Amazônia o bicho pertencia!
Mas a surpresa deu lugar à emoção no ano de 2001. O biólogo estava à procura de uma espécie pequena e, às vezes, difícil de ser encontrada, quando... um outro ’peixe misterioso’ surgiu! "Ao coletá-lo, fiquei eufórico, arrepiado", conta. Não era para menos: cerca de 20 exemplares foram coletados. Isso significava que, enfim, os cientistas poderiam estudar o ’peixe misterioso’ a fundo: afinal, eles não tinham mais um único indivíduo e, sim, vários!
Hoje, após terem sido feitos muitos estudos, pode-se dizer que o ’peixe misterioso’ não só pertence a uma nova espécie, como também será preciso criar uma nova família e um novo gênero para classificá-lo, pois ele não se encaixa nos que já existem! Por isso, Jansen Zuanon considera essa descoberta a mais intrigante da sua vida até agora.
"Para um cientista que trabalha no estudo de um grupo de animais ou plantas, descobrir uma nova espécie sempre é um prazer enorme e uma emoção especial", conta. "Mas quanto mais diferente for a espécie, ou quanto mais inesperada for sua descoberta, maior a emoção."
Porém, a descoberta não mexe apenas com os cientistas, mas com o público também. Ainda mais porque encontrar uma nova espécie, em alguns grupos de animais, não é algo trivial...
"Não é comum achar espécies novas de aves, por exemplo", explica José Maria Cardoso da Silva, que ajudou a descrever a caburé-de-pernambuco. Afinal, como explica Marcos Raposo, aves e mamíferos são bichos estudados há muito tempo, que os índios já conheciam, são animais maiores ou que cantam, enfim, que aparecem.
Quanto aos peixes... "Em alguns locais do mundo, como na Europa e na América do Norte, a fauna de peixes é bem conhecida e espécies novas são raras", conta Jansen Zuanon. "Porém, na América do Sul, em particular na Amazônia, a imensidão da região e a quantidade de rios e outros ambientes aquáticos nunca explorados cientificamente é grande. Por isso, há muitas espécies desconhecidas pela ciência."
Mas descrevê-las não é trabalho para qualquer um! Quem se dispõe a fazê-lo, para Marcos Raposo, precisa ser metódico e responsável. Atenção para detalhes, paciência para comparar exemplares e descrições e curiosidade também são qualidades primordiais, diz Jansen Zuanon. "Gostar de trabalho de campo e ter disposição para viajar até locais nem sempre seguros e confortáveis também aumenta a chance de achar espécies novas", conta. "Dizem ainda que uma dose de sorte não faz mal a ninguém..."
Descobrir e descrever espécies é importante, pois só assim conheceremos a diversidade de animais e plantas que há em áreas como a Amazônia. "Sem conhecê-la, fica difícil arranjar argumentos para preservá-la", diz Jansen Zuanon. Além disso, novas espécies podem ter características que ajudem os cientistas a entender melhor a evolução dos grupos de animais ou plantas. Por isso, esse trabalho precisa ser feito sempre!